Um dia ainda escalo o Everest
- Elis Faustino
- 26 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
NOTA: Escrevi esse texto antes da fatalidade com Juliana Marins que não sobreviveu à queda no vulcão na Indonésia. O post estava programado havia algum tempo. Coincidências ou não, uma frase que me tocou muito em meio a essa tragédia foi:
"quando uma mulher morre, eu sempre morro.
quando uma mulher livre morre, sinto que morro mais."
(post original em @poetha)
Juliana Marins será lembrada como uma mulher livre, corajosa e aventureira. Sua perda é muito simbólica e dolorida para todas nós que sonhamos em conquistar o mundo, em se lançar em expedições, viajar, conhecer novas culturas, viver intensamente apesar do mundo dizer não muitas vezes para nossos desejos.
Eu sinto muito, minhas condolências à família e continuo em oração por Juliana. Que sua alma descanse em paz.

Meu pai uma vez comprou a National Geographic para me incentivar a ler em inglês. A revista evocou em mim o espírito aventureiro e por essa meu pai não esperava. Perturbei sua paz por meses pedindo para aprender a escalar. Meu pai nunca foi dos esportes e não tinha a menor ideia de onde eu pudesse me tornar uma alpinista. Eu tinha convicção de que um dia subiria o Everest. Eu tinha 9 anos.
Lembro de um dia o qual fiquei com meu pai no escritório depois da escola. Ele tinha umas ligações importantes para clientes. Enviar propostas por fax. Eu tinha na mochila a minha National Geographic. Folheava aquelas paisagens de montanhas, neve, acampamento, fogueira, comida enlatada, luvas, toucas e cilindro de oxigênio. Eu suportaria o frio e as adversidades. Todos da minha equipe seriam meus amigos. Eles jamais cortariam a corda. Se eu caísse numa fenda, eles não desistiriam de mim. Se viesse uma avalanche, eles iriam escavar toda a montanha para me resgatar. Imaginava dormir sob o céu estrelado desafiando a morte num penhasco a mais de mil metros de altura.
Da janela do escritório eu via a única montanha de São Paulo, o solitário Pico do Jaraguá com 1.135 metros. Deveria haver alpinistas lá. O Everest era 8 vezes maior. Peguei a lista telefônica. Não havia sessão de alpinismo. Procurei por academias ou lojas de esportes. Pedi para meu pai ligar perguntando se eles conheciam ou sabiam de algum lugar ou grupo que praticasse escalada. Meu pai tentava me convencer que isso não tinha no Brasil. Lembrei do Pão de Açúcar. Claro que tem, pai. Ele mandou eu me concentrar no que importava, que comprou a revista para eu estudar inglês.
─ Você leu as matérias pelo menos?
Disse que estava lendo, fazia a tradução numa folha de caderno daquilo que eu sabia, sublinhei o que precisava consultar num dicionário, mas tinha esquecido o meu em casa. Meu pai pegou um dicionário enorme Michaelis que ficava ao lado de sua enciclopédia Barsa e mandou que eu traduzisse enquanto ele terminava o serviço.
Escaladores chegam à base K2 por uma trilha imponente. A densa neblina cobre o cume coberto de neve. Ao fundo um pálido nascer da lua.
─ Pai?
─ O que?
─ Alguma mulher já escalou o Everest?
─ Acho que não.
─ Você me leva um dia pro Pico do Jaraguá?
Meu pai digitava caçando as teclas colado com o rosto na tela verde do computador.
─ Pai?
─ O que?
─ Nada.
─ Já estou terminando. Pronto!
A impressora matricial puxou o rolo de papel. Ajudei a destacar as laterais e a cortar as folhas. Meu pai perguntou se eu já sabia passar fax. Quando a linha do outro lado deu sinal, enviei o orçamento. Meu pai ligou para o cliente para confirmar se o fax chegou legível. Estava otimista em fechar o contrato. Ele começou a guardar as coisas na sua pasta de couro marrom: agenda, calculadora, canetas, lenços e carteira. Ele parecia distraído e eu precisei lembra-lo de sua promessa:
─ Vamos lá. ─ ele disse.
Discou o número que eu apontei na lista telefônica.
─ E vocês conhecem algum lugar que tem? Só no Rio de Janeiro? Imaginei. É. É. Fica longe. Não, não é pra mim. É minha filha que quer aprender. Não aceita criança lá? Só maior de 18? Sei. Tá certo, meu amigo, obrigada pela informação.
Até hoje desconfio que foi tudo encenação.
Nota: em 1975, a japonesa Junko Tabei foi a primeira mulher a atingir o cume do Everest. Ela também completou o trajeto dos 7 cumes. Criou em 1969 o Clube de Mulheres Alpinistas do Japão para incentivar outras mulheres a realizarem o sonho de se tornarem montanhistas. Aos 10 anos escalou sua primeira montanha, o Monte Nasu.




