Tamara Klink e Nós, o Atlântico em Solitário
- Elis Faustino
- 22 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Em 2022, Tamara Klink participou da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) ao lado de Natassja Martin, autora de Escute as Feras, numa mesa intitulada Desterrando o Susto. Foi a primeira vez que ouvi a Tamara Klink e fiquei fascinada com a história da nossa velejadora, a primeira latina-americana mulher aos 23 anos a cruzar sozinha o Ártico e hibernar por 8 meses no mar congelado da Groelândia.
Estou certa de que uma travessia pode também criar um trauma. Descobrir nosso lado selvagem pode nos mudar para sempre. (KLINK, Tamara - Nós, o Atlântico em Solitário, p.14)
Na época, Tamara Klink contava também sobre a segunda etapa de sua viagem que acabara de realizar, estava ainda fresca, salpicada de sal, tentava organizar a narrativa, dizia que o livro ainda estava sendo editado para nos contar como foi a travessia em solitário da França ao Brasil.
Desde aquela conversa não perdi mais a Tamara Klink do meu radar.
Aguardei o lançamento do livro Nós - o Atlântico em Solitário, e incluí no meu Clube de Leitura entusiasmada com o que viria neste relato tão íntimo. Não sou muito de leituras de relatos de viagens, confesso que não li os livros do pai dela; não me interessa nenhum pouco a história de mais um homem fazendo o que os homens sempre fizeram, coisas que homens sempre tiveram acesso, sempre donos do mundo.
Agora, a história de uma mulher, brasileira, de 20 poucos anos, velejando com seu barco chamado Sardinha, sozinha, aí é outra coisa: eu me vi na Tamara Klink.
Pra mim, ela inaugura uma nova geração de mulheres. E apesar de estar sozinha na Sardinha, penso o quão bom foi saber que ela conseguiu apoio, seja com os patrocinadores acreditando no projeto, seja ela mesma confiando em sua capacidade e habilidade, saber que outras pessoas compraram seu sonho e fizeram parte de sua equipe (meteorologistas, navegadores, nutricionistas e psicólogos), e fico pensando na mãe e no pai que não a desestimularam, também não incentivaram, mas deixaram ela ir e pensei também que talvez ela não tenha precisado pedir autorização a nenhum adulto porque ela mesma já se era uma mulher formada que não pede licença para ser quem é e para fazer o que bem entende.
É isso que minha psicóloga sempre me diz e só agora entendi: o primeiro sim é a gente que se dá, o resto se ajeita.

Ao ler Tamara Klink me deparei com meus próprios medos e covardias. Confesso que dentro de mim ficava uma vozinha que dizia, ai menina, o que você está fazendo aí, volta pra casa e eu me senti mais aflita e controladora que sua mãe. Aquela parte de Marrocos meu coração gelou. A cada tempestade eu me segurava na poltrona, encolhia os pés como se minha sala também estivesse sendo inundada, segurei as abas do livro como se eu segurasse o cabo da genoa por ela. Eu me senti totalmente dentro da Sardinha. Eu estava lá velejando com a Tamara Klink. Eu vi tudo, até o azul profundo do mar naquele dia, eu vi.
Essa foi uma das piores noites que já vivi. (KLINK, Tamara - Nós, o Atlântico em Solitário, p. 163)
Talvez não caiba nesta resenha, mas vou contar de uma vez que passei por aflição semelhante. Ao ler o livro, me lembrei muito de uma ex-namorada que decidiu viajar de bicicleta de Goiânia até o Distrito Federal, passando pelo Caminho de Cora Coralina, ela e uma amiga francesa, as duas pedalaram mais de 300 quilômetros por trilhas entre fazendas, matagal, chão de terra, debaixo de chuva, subida e descida, carregando nas costas a bicicleta para atravessar os riachos, sem ter onde dormir, sozinhas, acampando na beira de estrada, pouca comida, água escassa, sol na cabeça, pousando em casa de estranhos, duas mulheres, desprotegidas, e eu não queria que ela fosse, mas ela não me pediu permissão. Para me tranquilizar, minha ex instalou um app com rastreador no meu celular e eu ficava olhando a cada meia hora para saber onde ela estava e pedi que me ligasse sempre que tivesse sinal e me segurei pra não ir lá interromper essa loucura, queria dizer, mas não disse, não poderia estragar o momento, eu sabia o quão importante era para ela, para todas nós mulheres, mesmo assim quase disse: prefiro você viva e infeliz, volta pra casa.
Uma mulher conquistando sua liberdade é revolucionário. Mulheres como a Tamara Klink abrem mundos para que as outras possam passar.
Quero ouvir muito mais histórias de suas aventuras.
Bons ventos pra você, Tamara.
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