Desabitada
- Elis Faustino
- 27 de mar. de 2025
- 6 min de leitura

Stella se mudou para o apartamento de Elis com a roupa do corpo. Ela nunca teve a intenção de morar junto. Precisava apenas de um lugar para ficar depois que sua casa foi assaltada. Elis se aproveitou da situação. Insistia em casar, ter filhos. Stella não estava pronta. Toda vez que Elis tocava no assunto, Stella se desviava. Ainda é cedo. Na quarta vez acabou cedendo porque não tinha para onde ir. Quando entrou em casa, viu suas coisas reviradas, na emoção do momento acabou ligando para Elis. Na semana elas haviam discutido. Stella falou que não queria mais. Deveria ter procurado uma amiga. Ou ter ido para casa da mãe. Não tinha condições de lidar com a situação sozinha. Precisava se acalmar para depois tomar as decisões necessárias.
Precisaria chamar o chaveiro. Reforçar as trancas. As janelas precisavam de grades. Stella não imaginou que alguém pudesse pular a janela. Agora vendo, realmente estava fácil subir pelo muro do vizinho, andar pelo telhado, um vão de meio metro qualquer um pularia. Será que chegaria ao ponto de contratar empresa de vigilância? Alguém especializado para instalar câmeras, alarmes, cerca elétrica. Uma mulher morando sozinha numa casa em São Paulo a fez sentir-se um alvo fácil. Talvez fosse bom ter um cão de guarda. Alguns se aproveitavam do aumento da criminalidade, Stella via prejuízos por todos os lados. Sentia-se roubada duas vezes.
A Elis falava tanto em morar juntas, morar juntas, morar juntas que acabou indo. Era uma chateação toda vez que recebia links de apartamentos. Por que sairia de sua casa? Não queria magoar, dizia que o imóvel era bonito, mas nem clicava para ver. Não queria morar na Santa Cecília. Tinha sua rotina. Sua vida. Suas coisas. Não pensava em casamento. Não queria filhos. Sua casa tinha o tamanho ideal apenas para ela e seu ateliê. Para morar juntos precisamos de um lugar maior, disse como desculpa. Pensou que fosse dar o fim nessa perturbação. Porém, ao invés de Elis desistir da busca, foi visitar uma casinha de vila. Insistiu para Stella visitar também. Dizia ser o imóvel perfeito com espaço para o ateliê. Aquela semana Stella estava cheia de trabalho. Tinha que terminar uma encomenda grande. Não deu para ir. Depois disso Elis nunca mais tocou no assunto. Ainda bem. Deu uma folga. Stella não queria terminar, mas também não queria morar juntas. Será que não dava para manter tudo como estava?
Agora o espaço que lutou para preservar havia sido profanado. Que azar, que vacilo, pensava. O morador de rua pulou a janela. Subiu pelo muro do vizinho. Tomou banho. Largou a calça mijada no corredor. Usou seus shampoos. Esfregou seu sabonete vegano artesanal de canela em seu corpo encardido. Revirou gaveta de calcinha. Levou tudo. O computador, a televisão, bijuterias, tênis, calça de moletom, casacos. Talvez estivesse precisando, pensou, mas que procurasse um centro de doações. Não perdoaria. Até os travesseiros o vagabundo levou. Cadê o edredom? Nossa, pelo fedor da cama ele deve ter se deitado. Que nojo. Ainda bem que não entrou em seu ateliê. Dos males os menores. Suas ferramentas ainda estavam lá. Ficou tão atordoada quando viu os farelos de pão na mesa. O queijo da geladeira tinha marca de dente. A garrafa de suco de laranja estava vazia largada dentro da geladeira. Só de pensar que ele teve tempo. Fuçou em tudo. Deve ter se deitado em sua cama. Tudo à luz do dia. Durante a semana.
O cheiro podre pairava no ar. Suor, sebo, mijo, caganeira, esgoto. Sentia náuseas. Não conseguia respirar direito. Não tinha condições de raciocinar. Depois decidiria o que fazer. Era muita coisa para lidar. Só queria sentar nas escadas e chorar. Quando a polícia chegou depois de uns 20 minutos disse que provavelmente o meliante soubesse que Stella não estava em casa. Isso não a tranquilizou. A Elis chegou pouco depois e ficou fazendo uma série de perguntas aos guardas. Stella queria mandar embora a Elis e a polícia. Foi quando ouviu o policial dizer:
─ A cracolândia está em todo lugar, minha senhora. Seria bom se vocês tivessem outro lugar para ficar.
Stella passou um bom tempo sentada na cadeira olhando para suas coisas espalhadas no chão. Estava com nojo de tudo. Nem beber água conseguiu. E se ele lambeu os copos dos armários? A Elis ficava repetindo que ainda bem que Stella não estava em casa no momento que o homem entrou pela janela do seu quarto. Dizia para confortar, mas deixava Stella mais agoniada. Stella só chorava. Decidiu que não iria lidar com essa merda agora. Trancaria a casa. Improvisou com um cabo de vassoura uma trava para a janela. Queria sair o mais rápido possível. Pensou na melhor amiga. Pegou o celular, chamou o uber. Iria para casa de Marina. Elis reclamou:
─ Eu levo você até lá. ─ Elis ofereceu carona. Entraram no carro. ─ Qual o endereço?
Claro que Elis sabia onde Marina morava. Foram lá tantas vezes.
─ Só vamos. ─ Stella chorou tanto que nem viu para onde estavam indo. Quando se deu conta desciam pela Marginal Pinheiros rumo ao apartamento de Elis no interior. Seu corpo inteiro tremia. Sentia um frio que vinha dos ossos como se eles tivessem sido mergulhados em nitrogênio líquido. A qualquer momento poderia se espatifar. Elis segurou em sua coxa e disse:
─ Fique comigo, por favor. Amanhã a gente vê o que faz.
─ Não, Elis, a gente precisa conversar.
─ Amanhã. Deixa eu cuidar de você.
Stella encostou a cabeça no vidro da janela do carro. As motos aceleravam entre os veículos. Elis aumentou o volume do rádio. O desleixo de Elis em criar uma playlist a incomodavam. Dentro do carro viu São Paulo ficar para trás. Stella se deixou levar. Chegando, Elis logo esquentou a água do chuveiro para Stella tomar um banho. Perguntou se poderia entrar também. Stella abriu espaço no box. Elis esfregou suas costas.
─ Tudo vai ficar bem, meu amor.
Stella não tinha palavras, apenas chorava e tremia. Talvez pela adrenalina. Lembrava de suas coisas reviradas. Imaginava o que poderia ter acontecido se o homem tivesse entrado enquanto ela estava em casa.
─ Ele revirou minhas calcinhas, Elis.
─ Eu sei, amor, eu sei.
Elis separou uma calcinha, mas Stella não vestiu. Deitou debaixo das cobertas do jeito que tinha saído do banho.
─ Descansa, amor.
Quando Elis saiu do quarto, Stella se enrolou num ninho. Sua respiração estava curta e acelerada. Uma vez aprendeu a técnica de Alexander e começou a vascular o próprio corpo. Os pontos de tensões. Enviou oxigênio para as costelas se expandirem. Relaxou o maxilar. Fechou os olhos. Mas as calças reviradas do morador de rua no corredor a fez abrir os olhos. Não queria mais voltar para casa. Não queria mais nada que lhe pertenceu. Seria melhor que ele tivesse carregado tudo. Jogaria fora que ele encostou. Seu ateliê. Acabou de se lembrar. Deveria ter retirado as coisas de valor. Agora foda-se também. Venderia sua casa. Procuraria um apartamento com porteiro. Talvez algum daqueles links que Elis enviou ainda estivesse disponível. Melhor gastar com condomínio, porteiro, vigilância 24h. É isso, não queria mais voltar.
De repente sentiu Elis encostar no topo de sua cabeça. Beijou seu couro cabeludo molhado. Surrurou:
─ Vem morar comigo.
─ Sim.
Elis entrou debaixo das cobertas. Transaram. Precisava. Melhor que a técnica Alexander. Dormiu pesado como se nem seu corpo fosse seu mais. Estava desabitada por completo.
No dia seguinte Stella resolveu enfrentar a situação. Disse que iria para sua casa pegar algumas coisas, queria ver o que poderia salvar. Combinou com a Marina de levar seus equipamentos para o galpão coworking na Barra Funda. Marina disse que ajudaria. Quando Elis se ofereceu para ir junto disse que queria ficar sozinha.
─ Mais tarde eu volto.
Era estranho voltar para casa. Parecia que aquela casa estava abandonada tinha anos. Ficou sentada na escada da entrada esperando Marina chegar. Stella providenciou uma trava com um pedaço de madeira para fechar a janela do quarto. Algo simples poderia ter evitado o ladrão. Stella separou as serras, furadeiras, impressora à laser, martelos, alicates, brocas e espátulas. Pegou o forno de fundição. Na bolsa de pano guardou todas as joias, pedras, os lingotes de ouro e prata. Não queria andar com toda sua mercadoria na rua, mas disfarçou com a bolsa de pano surrada. Ninguém iria imaginar que ali teria tanta coisa de valor. Por sorte, sorte mesmo, o morador de rua não arrombou a porta de seu ateliê. Talvez ele tivesse imaginado que fosse uma garagem com cacarecos, pneus furados e teia de aranhas. Quando retornou para o apartamento da Elis, longe pra caramba, por sinal, largou na entrada a bolsa de pano atravessada no peito. Na hora Elis perguntou:
─ Só trouxe isso?
Stella sabia que não ia durar. Ficou apenas uma semana.




