Cara de sapatão
- Elis Faustino
- 10 de abr. de 2025
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Minha primeira namorada me lembrava a elfa do Senhor dos Anéis. Ao se arrumar para gente sair, ela vestia sua calça larga por cima da cueca, a camisa de surf, o anel no polegar, botava os coturnos, ajeitava os cabelos compridos com um boné. No pulso fino um relógio pesado e antigo que dizia ser do seu avô. Andava de skate. Tinha atitude. Linda, toda princesa, ainda me perguntava na frente do espelho se estava com cara de sapatão.
─ Espero que sim, querida.
Eu me achava um orc. Talvez tenha sido criada na masmorra de Mordor. Naquela época eu tinha um Discman. Baixava Torrent. Comprava CDs piratas no calçadão de Osasco. Me virava. Ela comprava CDs originais. Recebia mesada. Tinha passaporte europeu. Elfa. Quando arrombaram seu carro para roubar o toca disco do painel, levaram também sua case com seus CDs caríssimos. Eu não soube acolhê-la. Disse o que provavelmente eu escutaria de minha mãe:
─ Quem mandou você deixar o carro na rua?
Eu era muito orc. Minha elfa atravessou o oceano e foi morar em Valinor.




